PECULIARIDADES DA VIDA RIBEIRINHA NA FRONTEIRA BRASIL – BOLÍVIA

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A vida ribeirinha é preenchida de valores sócio – linguístico – culturais que dinamizam os modos de ser no seu espaço e tempo. Esses modos de vida são construídos e reconstruídos cotidianamente dando origem ao aconchego do lugar. O lugar é interiorizado ao ser do ribeirinho, onde seus saberes e fazeres são imbricados em comunhão com a terra. A alma das populações tradicionais insiste em resistir aos avanços avassaladores de um mundo globalizado que altera profundamente esses modos de vida como resultado de um modelo de desenvolvimento amazônico excludente e extremamente violentador do homem.

A cozinha do seringal Pedra Chorona do rio Mamu no Departamento de Pando-Bolívia, ainda guarda os traços culturais herdados dos dois grandes surtos da borracha na Amazônia. (Figura 01). A carne de caça não deve ser desperdiçada, pois o seringueiro ainda teme os castigos do caboclinho da mata, enquanto o coador de café e o candeeiro se tornam utensílios caseiros indispensáveis ao cotidiano ribeirinho. As paredes, o assoalho de Paxiuba e o fogão à lenha se entrelaçam a outros produtos oriundos da sociedade envolvente como o óleo de soja.


Figura 01. Santana, F. M. Cozinha no seringal. Rio Mamu/Pando/Bolívia. Julho. 2010.

As peculiaridades ribeirinhas se tornam aspectos indissociáveis da alma humana. É a partir desse entendimento que Heidegger pensa o estar – com e o estar – entre características do ser – aí, que se constitui a partir dessa posição relativa circunstanciada. (MARANDOLA, 2014). O homem precisa do fogão, o fogão precisa de lenha, que para tal, precisa do suporte da natureza para encadear –se no constructo do bem viver amazônico. O carrinho ou carregador de lenha surge como um marcador instrumental desse cotidiano, um instrumento de trabalho indispensável ao ribeirinho da fronteira Brasil – Bolívia. (Figura 02).


Figura 02. Santana, F. M. Carro de carregar lenha. Rio Mamu/Pando/Bolívia. Julho. 2010.

O geógrafo e pesquisador brasileiro Almeida Silva (2015) tem se dedicado à relevantes estudos sobre os marcadores territoriais das coletividades indígenas da Amazônia e inspirado diversos pesquisadores na abordagem desta temática.

Os marcadores “fabricados” são mencionados por Henriques (2004) como espaços de habitação dos homens. Esses espaços de habitação, são segundo ela também o lugar dos produtores, que possuem a obrigação de assegurar a constituição, a conservação e a distribuição das reservas em territórios africanos.

A fronteira Brasil – Bolívia ainda carece de um modelo de desenvolvimento que dialogue com as populações originárias e tradicionais da Amazônia, onde as identidades dessas coletividades sejam no mínimo respeitadas.

Fonte – Marquelino Santana.

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