O primeiro Dia Mundial de Chagas surge para tornar visível esta doença negligenciada

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A partir deste ano, a cada 14 de abril, as pessoas afetadas pela doença de Chagas em todo o mundo estarão presentes na agenda global da saúde para mostrar e compartilhar os desafios que enfrentam. A maioria dessas pessoas vive em ambientes com poucos recursos e em condições de saúde muito vulneráveis. Após 111 anos desde o primeiro diagnóstico humano da doença de Chagas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu o dia 14 de abril como o primeiro Dia Mundial oficial para lembrar os desafios enfrentados pelas pessoas afetadas por essa doença negligenciada.

Embora a atual pandemia de coronavírus (Covid-19) exija o máximo de atenção nesses momentos críticos, este primeiro Dia Mundial de Chagas visa tornar visíveis as pessoas afetadas por uma doença, historicamente marginalizadas da agenda prioritária nos sistemas de saúde. E ainda mais, quando muitas das pessoas que sofrem com a doença de Chagas fazem parte da população vulnerável à pandemia de Covid-19.

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom, afirmou que, “ao comemorarmos o primeiro Dia Mundial da Doença de Chagas, celebramos as conquistas do doutor Carlos Chagas como cientista e líder em saúde pública”. Para Adhanom, o trabalho de Chagas tem sido inspirador para o Brasil e todo o mundo e, embora no momento a Covid-19 esteja no centro das atenções, é preciso parar para refletir sobre a doença de Chagas, que atinge mais de 6 milhões de pessoas no planeta, em sua maioria. Segundo o diretor-geral da OMS, “Carlos Chagas e a Fiocruz mostraram que está a nosso alcance prevenir, controlar e até eliminar esta doença debilitante e às vezes fatal. A única maneira de manter as pessoas seguras da doença de Chagas é eliminando a transmissão. Esta é uma doença silenciosa, que pode permanecer silenciosamente no corpo e causar danos cardíacos fatais”.

Adhanom lembra que o diagnóstico precoce e o tratamento podem fazer a diferença e que “nós podemos impedir a propagação da doença e manter as pessoas seguras por meio de medidas como controle do vetor, higiene, segurança alimentar e a triagem de doadores de sangue e de mulheres em idade fértil”. Para o diretor, é importante, no Dia Mundial da Doença de Chagas, “dar voz aos que sofrem. Se trabalharmos juntos, com determinação e convicção, podemos livrar as futuras gerações da doença de Chagas”.

A presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, disse que “hoje o mundo celebra o Dia Mundial da Doença de Chagas. Celebra no sentido de lembrar aquilo que precisamos fazer, pensando em mais de 6 milhões que em todo o globo sofrem com a doença, sendo de 2 a 3 milhões no Brasil. E é também um marco na história da Fiocruz, porque aqui, casa de Carlos Chagas, foi o lugar de onde cientistas saíram em busca de melhores condições de vida para trabalhadores da Estrada de Ferro Central do Brasil, e lá houve grande feito que foi a descoberta completa do ciclo da doença. Carlos Chagas se celebrizou por essa conquista mas também por propor medidas de saúde pública voltadas para a esta população”. Segundo Nísia, “é pensando no nosso SUS e nos desafios que temos ao enfrentar a Covid-19, nesta data celebrada em todo o mundo, e com o compromisso com uma ciência voltada à saúde pública, que a Fiocruz, com muito compromisso e muita ênfase, se coloca hoje nessa corrente mundial em defesa da pesquisa em doença de Chagas, no tratamento e na qualidade de vida das pessoas afetadas pela doença”.

A doença de Chagas é causada pelo parasita Trypanosoma cruzi, que é transmitido originalmente pelas fezes dos insetos, chamados barbeiros, bicudos, procotós, percevejos, entre outros nomes adotados de acordo com as diferentes regiões em que vive, desde o sul dos Estados Unidos a todo o continente americano. As outras vias principais pelas quais a transmissão ocorre são a materna- infantil (durante a gravidez) ou por via oral (alimentos contaminados com os insetos infectados), transfusões de sangue ou transplantes de órgãos. Todos eles, juntamente com os movimentos migratórios das últimas décadas, fazem da doença de Chagas um desafio global.

Aproximadamente 30% das pessoas que contraem a infecção por Trypanosoma cruzi desenvolvem complicações graves, principalmente do coração ou, em menor grau, distúrbios digestivos ou neurológicos. Estima-se que existam pelo menos 7 milhões de pessoas com a infecção no mundo. Todos os anos, cerca de 9.000 crianças nascem com o parasita Trypanosoma cruzi e mais de 12.000 pessoas morrem. Além disso, estima-se que, em todo o mundo, haja mais de 75 milhões de pessoas em risco de contraí-lo. Por isso, é muito importante diagnosticá-lo e tratá-lo precocemente, e há medicamentos disponíveis que alcançam resultados muito bons.

A Federação Internacional das Associações de Pessoas Afetadas pela Doença de Chagas (FINDECHAGAS) solicita às autoridades de saúde, nos países onde os casos foram diagnosticados, “que programas de prevenção sejam mantidos para proteger a maior população possível”. Da mesma forma, destacam a necessidade de “priorizar o atendimento e o tratamento de pessoas com diagnóstico positivo, pois, em muitos casos, essa pode ser a diferença entre saúde e doença ou vida e morte”. A aprovação do Dia Mundial, na Assembleia Mundial da Saúde, no ano passado, respondeu ao pedido expresso pela FINDECHAGAS, de ter um dia para reverter o silêncio e a invisibilidade que acompanham a doença de Chagas por muito tempo, há um século.

A situação atual da Covid-19 está desafiando o compromisso e a solidariedade dos sistemas de saúde e a visão de uma cobertura universal de saúde que não deixe ninguém de fora. Para eliminar a doença de Chagas como um problema de saúde pública, é necessário redobrar esforços no controle de todas as vias de transmissão; potencializar e aprimorar as ferramentas atuais de diagnóstico e de tratamento, bem como desenvolver novas; expandir a cobertura abrangente de assistência para todas as pessoas com a doença ou em risco de infecção. Além disso desafia também que se promova a comunicação e a conscientização sobre a doença.

Para isso, é essencial que aqueles que estão na vanguarda das decisões políticas e financeiras acompanhem com mais empenho, durante a próxima década, o trabalho da comunidade de pessoas afetadas, cientistas, organizações e profissionais de saúde que enfrentam os complexos problemas da doença de Chagas.

“É de extrema importância que as pessoas com doença de Chagas, e ainda mais durante a pandemia da covid-19, também recebam as informações necessárias para a prevenção e os cuidados adequados, quando necessário”, lembra FINDECHAGAS. “Durante muito tempo, sentimos que estávamos escondidos sob estimativas e números. Mas somos pessoas e queremos nos tornar visíveis para as autoridades de saúde do mundo”.

A partir deste 14 de abril, a FINDECHAGAS, juntamente com a OMS / OPAS e outras organizações que compõem a Coalizão Global de Chagas, bem como diferentes instituições e alianças em saúde, espalharão conteúdo relacionado a esta doença e às pessoas afetadas em suas redes.

Dados e estimativas atuais.

Afeta mais de 7 milhões de pessoas.
30.000 novos casos por ano.
Mais de 12.000 mortes anualmente.
Mais de 75 milhões de pessoas correm o risco de contrair a infecção por inseto vetor, congênito ou oral, bem como por transfusão de sangue e doação de órgãos.
A doença é endêmica em 21 países das Américas, sendo Brasil, Argentina, Bolívia, Colômbia e México os países com o maior número de populações afetadas.
Em relação às áreas consideradas não endêmicas, a doença está presente em todos os continentes. O maior número de pessoas afetadas é encontrado nos Estados Unidos e na Espanha.

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