Florestas regeneradas compensaram 12% das emissões de carbono por desmatamento na Amazônia, diz estudo

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<p><b>Karina Ninni | Agência FAPESP</b> – As florestas secundárias desempenham papel importante na captura de carbono, pois tendem a assimilar uma quantidade maior desse elemento em comparação ao que perdem para a atmosfera. Entretanto, a extensão e a idade média dessas matas que crescem por abandono de área no Brasil ainda eram desconhecidas. Não são mais. Em estudo recente <strong><a href=”https://www.nature.com/articles/s41597-020-00600-4″ target=”_blank”>publicado</a></strong> na <i>Scientific Data</i>, revista do grupo <i>Nature</i>, uma equipe liderada por dois cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) quantificou esses dados e descobriu que, em uma série histórica de 33 anos, o aumento de florestas secundárias compensou 12% das emissões por desmatamento da Amazônia.</p>

<p>O estudo teve apoio da FAPESP por meio de dois projetos. O <strong><a href=”https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/103185/arboles-um-entendimento-da-biodiversidade-e-resiliencia-das-florestas-latam-baseado-em-caracteristi/?q=2018/15001-6″ target=”_blank”>primeiro projeto</a></strong>, coordenado por <strong><a href=”http://https://bv.fapesp.br/pt/pesquisador/669035/luiz-eduardo-oliveira-e-cruz-de-aragao/” target=”_blank”>Luiz Eduardo Oliveira e Cruz de Aragão</a></strong>, teve início em 2019, e o <strong><a href=”https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/97938/variacao-interanual-do-balanco-de-gases-de-efeito-estufa-na-bacia-amazonica-e-seus-controles-em-um-m/?q=2016/02018-2″ target=”_blank”>segundo</a></strong>, que tem como coordenadora <strong><a href=”https://bv.fapesp.br/pt/pesquisador/32051/luciana-vanni-gatti/” target=”_blank”>Luciana Vanni Gatti</a></strong>, começou em 2017.</p>

<p>“A capacidade de absorção de carbono da floresta secundária é conhecida por estudos de monitoramento de parcelas no campo. A taxa média de absorção líquida de carbono em regiões neotropicais é 11 vezes maior que a observada em florestas antigas. Mas há ainda muita falta de conhecimento acerca da dinâmica de longo prazo das florestas secundárias no Brasil e no mundo”, afirma Aragão, um dos autores do estudo, conduzido no Inpe durante o doutorado de Celso H. L Silva Júnior.</p>

<p>Esse conhecimento é fundamental para auxiliar o país a atingir suas metas de Contribuição Nacional (NDCs) previstas na Convenção-Quadro da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre Mudanças Climáticas, já que o Brasil se comprometeu a reflorestar, até 2030,12 milhões de hectares desmatados, ele sublinha.</p>

<p><b>Cálculo por biomas</b></p>

<p>O estudo quantificou a extensão de florestas secundárias de crescimento passivo no Brasil (as que se regeneram após abandono da área) e suas idades, por biomas. Segundo Aragão, o crescimento da floresta secundária não é linear e se dá em função da idade – daí a importância de estabelecer a idade das florestas para poder estimar seu potencial de captura de carbono.</p>

<p>Os dados apontam um total de 262.791 quilômetros quadrados (km2) de florestas secundárias recuperadas no Brasil entre 1986 e 2018, o que corresponde a 59% da área de florestas antigas desmatadas na Amazônia brasileira entre 1988 e 2019.</p>

<p>“Elas estão distribuídas pelo território, com menor proporção no Pantanal, bioma que contribuiu com 0,43% [1.120 km2] da área total mapeada. A maior proporção de florestas recuperadas, 56,61% [148.764 km2], foi observada na Amazônia. A Caatinga representa 2,32% [6.106 km2] da área de florestas secundárias no Brasil e tem as matas mais jovens: mais de 50% têm entre um e seis anos.”</p>

<p>A Mata Atlântica aparece em segundo lugar no ranking de extensão de áreas recuperadas, com 70,218 km2 (ou 26,72% do total) e tem as florestas secundárias mais antigas: acima da metade tem entre um e 12 anos de idade.</p>

<p><b>Quatro passos</b></p>

<p>O grupo implementou o método utilizado na plataforma <i>Google Earth Engine</i> (GEE) e partiu de uma série temporal de mapas do Projeto Brasileiro Anual de Mapeamento de Uso da Terra e Cobertura Terrestre (MapBiomas), que provê uma série com dados desde 1986. A equipe criou um conjunto de 131 mapas de referência para 33 anos de florestas secundárias no país divididos por bioma. O material está disponível nos links <strong><a href=”https://doi.org/10.5281/zenodo.3928660″ target=”_blank”>https://doi.org/10.5281/zenodo.3928660</a></strong> e <strong><a href=”https://github.com/celsohlsj/gee_brazil_sv” target=”_blank”>https://github.com/celsohlsj/gee_brazil_sv</a></strong>.</p>

<p>Primeiro, os cientistas excluíram as áreas alagadas. Depois, dividiram a metodologia em quatro passos. No primeiro, todas as bases do MapBiomas utilizadas (34 mapas) foram reclassificadas em mapas binários, nos quais os pixels identificados como “1” indicavam área florestada. O valor “0” foi atribuído a pixels correspondentes a outros usos e outros tipos de cobertura. Manguezais e florestas plantadas foram deixados de fora. Cada pixel corresponde a uma área de 30×30 metros.</p>

<p>No segundo passo, foi mensurado o aumento das florestas secundárias usando os mapas produzidos na etapa anterior, pixel a pixel. “Estabelecemos que as florestas secundárias ocorrem quando um pixel classificado como cobertura antrópica em um dado ano é substituído por um pixel que corresponde à cobertura florestal no ano seguinte”, resume Aragão.</p>

<p>Na terceira etapa, os cientistas geraram mais 33 mapas, desta vez da extensão anual das florestas secundárias. “Para produzir o mapa da extensão florestal secundária em 1987, somamos o mapa do incremento florestal secundário em 1986, obtido na etapa 2, com o mapa de incremento de 1987, resultando em um mapa contendo todos os pixels da floresta secundária de 1986 e 1987. Sabendo que a soma sequencial desses mapas resulta em pixels com valores superiores a ‘1’, para criar mapas binários anuais de extensão florestal secundária reclassificamos o mapa produzido para cada ano, atribuindo o peso de ‘1’ a pixels com valores entre 2 e 33 – o que corresponde à extensão florestal propriamente dita, ano a ano. Os pixels com valor ‘0’ não foram alterados.”</p>

<p>Por fim, restava calcular a idade das florestas secundárias. A equipe somou o mapa da extensão anual da floresta secundária de 1986 (obtido na etapa anterior) com o mapa de 1987 para obter a idade das florestas secundárias em 1987. “Continuamos essa soma ano a ano até obtermos o mapa de idade florestal secundária de 2018”, explica Aragão. Segundo ele, o próximo passo é estabelecer o crescimento dessas florestas secundárias como função da idade. “Já submetemos um artigo em que fazemos essa quantificação.”</p>

<p><b>Emissões</b></p>

<p>O cálculo do potencial líquido de captação de carbono por florestas secundárias em cada bioma brasileiro entre 1986 e 2018 foi feito por meio de uma abordagem pixel a pixel. Para isso, os cientistas estabeleceram que cada hectare de floresta secundária mapeada capta em média 3.05 MgCha−1 yr−1 (megagramas de carbono por hectare por ano), independentemente da idade, com exceção de florestas com mais de 20 anos, que foram consideradas com taxa nula de absorção de carbono.</p>

<p>O Pantanal teve a menor contribuição para a captação de carbono do Brasil, respondendo por 0,42% entre 1986 e 2018. O bioma Amazônia teve a maior contribuição, respondendo por 52,21% da captação florestal secundária brasileira. O estudo conclui que, no período entre 1988 e 2018, a absorção estimada por florestas secundárias no Brasil compensa 12% das emissões provenientes do desmatamento na Amazônia brasileira.</p>

<p>Para Aragão, entretanto, ainda é preciso modificar o modo de uso da terra, sobretudo na Amazônia. “Ao longo do tempo, percebe-se que a área de floresta secundária proporcionalmente à área desmatada não aumenta muito. Isso está relacionado à maneira pela qual as pessoas usam a terra, principalmente na Amazônia. Temos de modificá-la. Quando se desmata, perdem-se os outros benefícios das florestas naturais, que têm um papel indispensável no ciclo hidrológico e na manutenção da biodiversidade, muito maior que as secundárias. E também têm maior resiliência às mudanças climáticas.”</p>

<p>Com os novos dados, ele afirma, o país ganha capacidade de subsidiar decisões do Estado brasileiro sobre a diversidade e o planejamento de uso e proteção das florestas secundárias. “Elas não são protegidas e prestam um grande serviço. Geralmente, inclusive, são as que sofrem mais conversão no ciclo do uso da terra na Amazônia. Agora podemos identificar até que ponto elas deveriam ser protegidas.”</p>

<p>O artigo <i>Benchmark maps of 33 years of secondary forest age for Brazil</i> pode ser lido em <strong><a href=”https://www.nature.com/articles/s41597-020-00600-4″ target=”_blank”>www.nature.com/articles/s41597-020-00600-4</a></strong>.</p>
<br><p>Este texto foi originalmente publicado por <a href=”https://agencia.fapesp.br/”>Agência FAPESP</a> de acordo com a <a href=”https://creativecommons.org/licenses/by-nd/4.0/”>licença Creative Commons CC-BY-NC-ND</a>. Leia o <a href=”https://agencia.fapesp.br/florestas-regeneradas-compensaram-12-das-emissoes-de-carbono-por-desmatamento-na-amazonia-diz-estudo/34182/” target=”_blank”>original aqui</a>.</p><iframe src=”https://agencia.fapesp.br/republicacao_frame?url=https://agencia.fapesp.br/florestas-regeneradas-compensaram-12-das-emissoes-de-carbono-por-desmatamento-na-amazonia-diz-estudo/34182/&utm_source=republish&utm_medium=republish&utm_content=https://agencia.fapesp.br/florestas-regeneradas-compensaram-12-das-emissoes-de-carbono-por-desmatamento-na-amazonia-diz-estudo/34182/” width=”1″ height=”1″ frameborders=”no”></iframe>

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