Paraíba ganha zoneamento de solo e clima com acesso público

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Após quatro anos de trabalho, grupo de pesquisadores entregou o zoneamento pedoclimático (solo e clima) da área de influência do Canal das Vertentes Litorâneas da Paraíba (ZON-PB), na escala 1:50.000, que gerou 30 mapas. Foi estudada uma área de 514 mil hectares, contemplando 33 municípios da Zona da Mata, litorânea e agreste do estado, os quais estão sob influência do canal conhecido localmente como Acauã-Araçagi, obra complementar do Projeto de Integração do Rio São Francisco (PISF). O trabalho está disponível para acesso público na infraestrutura de dados espaciais da Embrapa (GeoInfo). A Paraíba possui aproximadamente 56 mil quilômetros quadrados e cerca de 90% do território está na região semiárida.

“O ZON-PB, realizado pela Embrapa e Secretaria de Estado do Desenvolvimento da Agropecuária e da Pesca (Sedap-PB), na escala de 1:50.000, amplia o conhecimento de solos e clima, o que gera vantagens competitivas para os tomadores de decisão na definição de programas e implantação de projetos, otimizando a aplicação de recursos financeiros e o uso dos recursos ambientais. Os últimos mapeamentos no estado ainda datavam dos anos 1970 do século passado, com uma escala muito baixa, de 1:500.000, feitos em parceria com a Sudene”, esclarece André Julio do Amaral, dirigente da Unidade de Execução de Pesquisas da Embrapa Solos, em Recife (PE).

O trabalho realizou o zoneamento do potencial pedoclimático da região para quatro culturas agrícolas de importância para o estado (milho, sorgo, cana-de-açúcar e abacaxi). Para isso, o estudo visou o uso racional dos recursos naturais, o desenvolvimento agropecuário da região com critérios de sustentabilidade e o subsídio de políticas públicas voltadas ao incentivo à produção agropecuária estadual. O estudo poderá ser estendido, no futuro, para outras culturas e criações, bem como para outras regiões da Paraíba.

Apoio à irrigação

“O estado ainda não possuía nenhum zoneamento agroecológico adequado à escala de seu território. Assim, há uma grande expectativa para o uso das informações geradas pelo ZON-PB, especialmente no suporte ao planejamento e ao desenvolvimento de atividades agropecuárias irrigadas e não irrigadas na região polarizada pelo canal das Vertentes Litorâneas da Paraíba, Canal Acauã-Araçagi. Esse canal adutor é uma obra do governo da Paraíba em parceria com o governo federal, por meio do Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR), com 37 quilômetros de extensão e vazão de até dez m³/s, que deverá potencializar a produção agropecuária irrigada na região”, afirma Demilson Araújo, engenheiro agrônomo da Sedap.

Para a Sedap, o principal benefício das informações do ZON-PB na área de influência do canal Acauã-Araçagi é a ampliação do conhecimento de solos e de clima que, associado às interpretações dessa base de dados (potencial pedológico e potencial pedoclimático para diversas culturas e potencial de terras para irrigação), deverá gerar vantagens na definição de programas e implantação de projetos, com o uso adequado das terras. Além disso, fortalecerá as políticas públicas voltadas para o incentivo à produção de grãos e forragens e para o fortalecimento das culturas da cana-de-açúcar e do abacaxi. Deverá subsidiar também ações do governo no sentido de criar e desenvolver a agricultura irrigada na região de estudo.

O pesquisador da Embrapa Algodão (PB) Marenilson Batista da Silva também acredita na importância do ZON-PB para o desenvolvimento do estado. “No que se refere a algumas culturas e algumas cadeias produtivas, elas têm, no zoneamento, uma contribuição muito importante tanto na agricultura familiar quanto nas de média e grande escala, pois dão condições de verificar as potencialidades a serem exploradas correlacionando clima, solo e cultura. Por isso, entendemos ser fundamental esse zoneamento para o desenvolvimento da Paraíba,” declara o cientista.

O ZON-PB também é um primeiro passo do Programa Nacional de Solos do Brasil (PronaSolos) na Paraíba. O programa é um trabalho inédito de grandes proporções, que irá elevar o conhecimento sobre os solos brasileiros. Coordenado pela Embrapa, o PronaSolos vai mapear o território brasileiro e gerar dados com diferentes graus de detalhamento para subsidiar políticas públicas, auxiliar gestão territorial, embasar agricultura de precisão e apoiar decisões de concessão do crédito agrícola

Sobre os mapas

O zoneamento gerou seis produtos principais: os mapas de solos, a aptidão climática para culturas agrícolas, o levantamento do uso e cobertura atual das terras, o potencial pedológico para culturas agrícolas, o potencial pedoclimático para a mesma finalidade e potencial para irrigação encontrado nessas áreas.

“O mapa (levantamento) de solos mostra a geografia da terra da região na escala 1:50.000, bem como as suas relações com os fatores de formação — clima, material de origem, organismos, relevo e tempo. O conhecimento dos solos permite uma visão sistêmica do ambiente colocando em evidência as potencialidades e as limitações dos recursos naturais, bem como as interpretações diversas para fins de uso agrícola e não agrícola”, revela o dirigente da Embrapa. O levantamento de solos também disponibiliza informações para múltiplas finalidades. Particularmente, gera subsídios para avaliação da aptidão agrícola das terras; do potencial pedológico por cultura; do potencial de terras para irrigação; do comportamento hidrológico de bacias hidrográficas; da fertilidade de solos; e do manejo e conservação dos solos.

Já o conhecimento da aptidão climática para culturas agrícolas é importante para a implantação e o desenvolvimento de sistemas agropecuários que buscam a sustentabilidade. Para o zoneamento de aptidão climática das culturas da cana-de-açúcar, milho, sorgo e abacaxi, foram aplicados procedimentos diferentes dos tradicionalmente usados, que se baseiam apenas em um cenário pluviométrico médio. Na abordagem desse zoneamento, foram utilizados três cenários climáticos: anos secos, regulares e chuvosos, os quais representam a variabilidade natural do estado nordestino.

Os pesquisadores lembram também que o conhecimento do uso e da cobertura das terras é importante para o planejamento da utilização racional dos recursos naturais. As informações geradas, normalmente na forma de mapas, dão indicações sobre os impactos das atividades humanas sobre importantes indicadores ambientais como quantidade, qualidade e perda de água e terra, qualidade do ar e suas implicações para as mudanças climáticas locais, regionais e globais, perda da vegetação nativa, desvios entre o que é tecnicamente recomendado e o uso efetivo das terras. “As principais classes de cobertura identificadas nesse levantamento incluem áreas de agricultura dependente de chuva; áreas de agricultura irrigada; transição floresta úmida/Caatinga; pastagens em áreas secas e pastagens ou cana-de-açúcar em áreas úmidas”, enumera Amaral.

O potencial pedológico para culturas agrícolas define as potencialidades e limitações dos solos em sua ambiência para as culturas agrícolas. Para sua determinação, foram utilizadas 224 unidades de mapeamento do levantamento de reconhecimento de alta intensidade de solos (escala 1:50.000). O planejamento rural é fundamental para ordenar a ocupação das terras, aumentar a produtividade agrícola e prevenir danos ambientais. “Diante disso, esse zoneamento teve como objetivo estabelecer o potencial pedológico para cinco culturas agrícolas: abacaxi, cana-de-açúcar, mandioca, milho e sorgo, selecionadas em função de sua importância socioeconômica para o estado e com vistas ao desenvolvimento agropecuário regional”, conta Amaral.

O potencial pedoclimático indica a aptidão efetiva das terras para o desenvolvimento das culturas, pois integra, em documento único, as condições de solo e de clima dos ambientes, comparando-os com as exigências edafoclimáticas das culturas. A avaliação foi feita para o abacaxi, cana-de-açúcar, mandioca, milho e sorgo, por meio do cruzamento dos mapas do potencial pedológico, elaborados considerando a possibilidade de emprego de dois níveis tecnológicos no manejo dos solos e das culturas pelos agricultores (média e alta tecnologias), com os mapas de aptidão climática considerando três possíveis cenários pluviométricos (anos secos, regulares e chuvosos).

Por fim, o mapa de potencial de terras para irrigação é uma técnica que possibilita indicar aos planejadores os locais de ocorrência das melhores áreas para o uso com agricultura irrigada, aumentando, com isso, as chances de sucesso no uso dessa tecnologia na produção agrícola. “A área de influência do Canal das Vertentes Litorâneas da Paraíba possui grande parte da sua extensão territorial em clima semiárido. Essa condição ambiental predispõe as atividades agrícolas aí desenvolvidas na dependência de chuvas a elevados riscos de perda de safra por deficiência hídrica. Nesse contexto, o uso da tecnologia da irrigação no planejamento de uso agrícola das terras, associada aos manejos já tradicionalmente adotados pelos agricultores, torna-se uma importante ferramenta aliada do produtor rural para minimizar riscos de perdas de safra e aumentar a produtividade, principalmente nos anos mais secos”, conclui Amaral.

 

Carlos Dias (MTb 20.395/RJ)
Embrapa Solos