Lagoa que agoniza no coração da Colômbia alerta para as mudanças climáticas

0
437

Hernán Sandino caminha pensativo de casa até o final do cais flutuante de madeira. À sua frente não há água, mas uma superfície sedenta e rachada em expansão. A lagoa Suesca, de 5,4 km2, e reserva hídrica da Colômbia contra as mudanças climáticas, está agonizando diante de seus olhos.

É a segunda vez em uma década que a seca coloca à beira da extinção esse reservatório natural de água, localizado cerca de 90 km ao norte de Bogotá, entre os municípios de Suesca e Cucunubá.

O espelho d’água é um vislumbre. A casa de Sandino, um engenheiro de 73 anos, cambaleia nessa espécie de deserto movediço a 2.800 metros acima do nível do mar. É uma casa de campo com três quartos, um jardim de rosas e conectada ao cais onde até pouco tempo atrás ele atracava seu veleiro.

Vista aérea da lagoa Suesca, em Cucunubá, na Colômbia© Raul ARBOLEDA Vista aérea da lagoa Suesca, em Cucunubá, na Colômbia

“Não estamos mais flutuando na água, mas enterrados na lama”, lamenta. Esta é uma “mudança climática que apenas alguns inconscientes negam”, acrescenta.

O tamanho da lagoa aumenta ou diminui de acordo com as chuvas. “Sua principal saída de água é a evaporação”, explica a Corporação Autônoma Regional (CAR), autoridade ambiental da área.

Com pluviômetro em mãos, Sandino registrou queda nas chuvas nos últimos oito anos. Ele está conformado de que isso se tornará “um fenômeno cíclico”. Hoje a lagoa tem menos de um metro de profundidade contra os seis que ele tem na memória.

Vista aérea do leito da lagoa de Suesca em Cucunubá, região central da Colômbia, resultado da estiagem, que se agravou devido às mudanças climáticas© Raul ARBOLEDA Vista aérea do leito da lagoa de Suesca em Cucunubá, região central da Colômbia, resultado da estiagem, que se agravou devido às mudanças climáticas

Um ganso nada solitário no que resta da água. Em outra época, patos canadenses, garças e tinguas o teriam acompanhado.

Em 2006, a lagoa da Suesca foi declarada reserva hídrica e reservatório de biodiversidade – abrigo para aves migratórias – no combate às mudanças climáticas. As autoridades então se comprometeram com um plano ambiental para frear as pastagens para gado e a extração de água com motobombas.

Resgate ambiental

No entanto, 15 anos depois, os esforços se mostram insuficientes. Esta semana, a CAR lançou uma operação de resgate que visa estender e aprofundar o corpo moribundo de Suesca. Tudo, porém, dependerá das chuvas.

Nos próximos meses, a entidade espera ter prontas obras de manutenção e construção de um sistema de drenagem no entorno da lagoa.

Segundo Humberto Hernández, engenheiro do órgão estatal, o entupimento desses ralos impede que a pouca chuva que caiu nos últimos anos desça das montanhas vizinhas. Mas se a seca continuar, não há obras que valham a pena.

Em 2009, a lagoa atingiu níveis ainda mais baixos, mas nos dois anos seguintes o fenômeno La Niña, que aumenta as chuvas neste país tropical e diverso, ajudou a Suesca a recuperar até 5,7 metros de profundidade.

Essas chuvas, entretanto, também causaram na Colômbia impactos desastrosos com perdas milionárias.

Mais tarde, o clima sofreria uma virada. “Em 2015 e 2016, ocorreu um dos fenômenos El Niño mais intensos da história”, explica Hernández.

Esse evento natural, que aumenta a temperatura no Oceano Pacífico, não tem ciclos estabelecidos e, ao contrário do La Niña, é caracterizado por escassez de chuvas.

De acordo com a ONU, “a mudança climática induzida pelo homem (…) está exacerbando o clima extremo, impactando os padrões sazonais de chuva”.

“Não é um único mês, não é um único período de chuvas (…) mas muitos anos” de anomalia climática, ressalta Hernández, o especialista da CAR.

 

 

Por AFP