Falta chuva, sobram sol e vento: a chance de o Brasil repensar sua matriz

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Parque Eólico Caetité, na Bahia (crédito – Selma Bellini)

Diante da crise hídrica e do aumento das tarifas de energia, empresas como GE, Vestas e Casa dos Ventos veem uma oportunidade de impulsionar os negócios ligados às energias eólica e solar

Ernani Fagundes

Parque Eólico Caetité, na Bahia (crédito – Selma Bellini)

No início desta semana, a Eternit anunciou as primeiras vendas de suas telhas fotovoltaicas, capazes de transformar a luz do sol em energia elétrica. Com capacidade de gerar 7 quilowatts de potência, elas foram destinadas a clientes selecionados, instalados próximos da fábrica da empresa, em Atibaia (SP).

A aposta na nova área traduz um esforço mais amplo da companhia, conhecida por suas telhas de amianto, um material com potencial cancerígeno. Em recuperação judicial, a empresa enxerga nas telhas que produzem energia o atalho para reencontrar seu lugar ao sol e consolidar sua reestruturação.

A Eternit não está sozinha nessa trilha. Com o Brasil diante de uma nova crise hídrica e do aumento das tarifas de energia, empresas como GE, Vestas, Casa dos Ventos e startups como a SolFácil, estão de olho na oportunidade para impulsionar os negócios ligados às energias de fontes renováveis, como a eólica e a solar.

Um dos principais fabricantes de aerogeradores de grande porte, a Vestas Brasil já vem testemunhando o aumento da demanda por projetos de energia eólica. A empresa tem 5,5 gigawatts contratados para entrega no curto prazo.

Braskem, Anglo American, BP, Vale, Grupo Moura e Lojas Renner são alguns dos consumidores de energia livre da Vestas. Já a relação de clientes das turbinas da companhia inclui nomes como Casa dos Ventos, Engie, Quadran, EDF, Ômega e Enel.

“Dinheiro não é um problema nesse momento”, observa Colombo. “O BNDES e os demais bancos estão financiando projetos sustentáveis e também há acesso a capital externo.”

Uma das principais geradoras de energia eólica do País, a Casa dos Ventos é um exemplo dessa disponibilidade de capital. A empresa tem projetos prestes a entrar em operação. São eles, Rio do Vento, no Rio Grande do Norte, em duas fases, e Babilônia Sul, na Bahia.

“Esses projetos tiveram diversas fontes de recursos, entre elas, 8 SPEs (sociedades de propósito específico), financiamento do Banco do Nordeste e do BNDES”, diz Lucas Araripe, diretor de novos negócios da Casa dos Ventos.

Ele acrescenta que, para a segunda fase do parque de Rio do Vento, a companhia também contará com a emissão de debêntures de infraestrutura, com garantia firme do BNDES. O projeto inclui 240 turbinas, num total de 1,038 gigawatts, sendo 504 megawatts relativos a primeira fase da iniciativa, prevista para entrar em operação até o fim do ano.

“E ainda temos o Serra da Babilônia iniciando agora, que envolve 360 megawatts, no prazo de um ano e meio”, afirma Araripe, que acrescenta: “Dá para abastecer um estado como o Piauí.”

O executivo ressalta que grandes companhias estão demonstrando interesse em projetos de geração ou de parques eólicos próprios. Na mesa, estão discussões sobre parcerias com prazo de 15 a 20 anos para concretizar esses projetos.

“Existem preocupações, principalmente, com o custo da energia, a agenda verde para terem um suprimento sustentável e com contratos de longo prazo para fugir das flutuações do mercado”, afirma Araripe.

Presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), Elbia Gannoum confirma essa disponibilidade de recursos e as boas perspectivas do segmento, mas faz um alerta. “Precisamos de um bom planejamento para equilibrar a oferta e a demanda numa retomada da economia”, afirma.

De acordo com o último relatório da ABEEólica, a projeção é de que a capacidade instalada no País evolua de 20,17 gigawatts, neste ano, para 25,75 gigawatts, em 2022. Com base em contratos viabilizados em leilões já realizados e no mercado livre, a entidade prevê que esse volume chegue a 30,2 gigawatts em 2024.

A ABEEólica prevê que a capacidade instalada de energia eólica no País salte de 20,17 gigawatts, neste ano, para 30,2 gigawatts, em 2024

Sob esse contexto, quem também está aquecendo suas turbinas é a GE Renewable Energy, divisão da multinacional GE. A unidade prevê entregar 300 aerogeradores entre o fim desse ano e o começo de 2022, o que representa uma capacidade de 1,5 gigawatts.

Hoje, a GE Renewable Energy tem cerca de 3 mil aerogeradores instalados no País, com aproximadamente 6 gigawatts de capacidade instalada. A produção dos equipamentos é dividida entre as fábricas da empresa em Camaçari, na Bahia, e Suape, em Pernambuco.

“Uma parte dos dispositivos é importada e o dólar já está afetando o custo do aerogerador”, diz Mauricio Vieira, líder de vendas da divisão de Wind da GE Renewable Energy no Brasil. “Mas a energia eólica tem um preço bem competitivo é uma fonte confiável.”

Engrossando esse coro, Araripe, da Casa dos Ventos, dá exemplos de preços dos últimos leilões. Enquanto a energia eólica teve contratações a R$ 150 de megawatts por hora, pequenas centrais hidrelétricas registraram valores entre R$ 200 e R$ 250 de megawatts por hora.

“Tanto a energia eólica como a energia solar são muito mais baratas que as térmicas”, destaca o executivo. Em julho desse ano, em dois leilões, a energia solar registrou preços médios de US$ 26 por megawatts por hoje, cerca de R$ 135 pela cotação atual.

Head de Energia de Project Finance do Itaú BBA, banco que responde por 39% dos projetos de energia eólica no País e iniciativas de geração distribuída, além de parques solares, Wilson Chen Chang segue a mesma linha. E acrescenta outros argumentos a esse discurso.

“Por causa da alta do dólar e do aumento de componentes importados, o custo da energia solar também subiu, mas o risco é menor”, afirma. “Em menos de um ano dá para colocar um grande projeto de pé.”

Caminho mais curto

Os projetos de energia solar são vistos como o caminho mais curto para minimizar os efeitos da crise hídrica. Na prática, quem possui um telhado disponível que receba irradiação solar consegue instalar a geração própria em até uma semana.

Segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSolar), hoje, esse segmento tem 10 gigawatts de potência operacional instalada no País, sendo 3,5 gigawatts de usinas solares, ou 1,9% da matriz energética brasileira, e 6,5 gigawatts de geração própria em residências, pequenos negócios e propriedades rurais. Ao todo, o setor atende mais de 700 mil unidades consumidoras.

Fundada em 2018, a fintech SolFácil é uma das empresas dispostas a impulsionar esses indicadores. A novata financia projetos de geração de energia solar e atraiu, no fim de junho, uma rodada série B de R$ 160 milhões liderada pelo fundo americano QED Investors.

Com 5 mil parceiros de instalação distribuídos pelo País, a SolFácil escolheu como um dos destinos do cheque a expansão do seu portfólio, hoje composto por ofertas para projetos de consumidores residenciais, além de pequenas e médias empresas.

A novidade será uma linha centrada em projetos de energia solar em propriedades rurais, com previsão de lançamento neste semestre.

“Nesse ano, nossa projeção é financiar algo em torno de R$ 1 bilhão em novos projetos, praticamente dez vezes o que fizemos em 2020”, afirmou Fábio Carrara, fundador e CEO da SolFácil, em entrevista ao NeoFeed, na época da rodada. “E para 2022, a estimativa é de R$ 2,5 bilhões, com mais de 100 mil clientes financiados nesses dois anos somados.”